| Literatura e Vida |
|
|
|
| Por Paulo Oriente | |
|
I. O livro como experiência de vida vivida Todos sabemos que ser alfabetizado é melhor do que não ser. Temos a idéia clara de que ler é importante (informação, cultura, conhecimento, entretenimento). Quem gostaria de ser analfabeto? No entanto, as pessoas de hoje lêem muito pouco.Não que deixem de ler mensagens na Internet, anotações de aula para uma prova ou textos obrigatórios das matérias da Faculdade. O que as pessoas não fazem é dedicar-se a comprar ou pedir livros emprestados, a estudar e aprofundar nos conhecimentos que os livros transmitem, a ler como atividade habitual e séria da vida. Trata-se da leitura para compreender a vida. Por que Homero, há mais de dois mil anos, descreveu a morte de heróis na sua história? O que Camões quis transmitir com o Velho de Restelo? Qual a diferença e o sentido de D. Quixote e Sancho Pança? Quem era a Beatriz de Dante? Como é que Tristão foi se apaixonar pela noiva do tio, que o criou e protegeu? Ler um livro, um bom livro, é adquirir experiência de vida vivida (pelo autor, pelos amigos do autor, seus familiares, etc., como no caso de “Notícias de um seqüestro”) ou que poderia ter sido vivida (criação de uma estória, baseada na correta antropologia, como no caso de “Hamlet”). O livro produz cultura no leitor; cultiva-o. Assim como uma pessoa inteligente ri de uma piada inteligente porque a entende, uma pessoa culta está melhor preparada para encarar e compreender a vida. Assim como quem não riu quer urgentemente entender o sentido da piada, quem não lê precisa avidamente saber qual o sentido da vida, da morte, do prazer, da riqueza. Por que uns dedicam a sua vida à leitura, ou não deixam passar um só dia sem avançar nos textos, ou aproveitam todos os momentos livres para ler, enquanto outros – a maioria – não lêem nada, ou – a duras penas – lêem revistas com muitas fotos, a parte esportiva do jornal ou os títulos do site de lutas marciais? A resposta é evidente. Quem lê muito descobriu algo que os demais apenas suspeitam. Há algo nos livros que produz resultados interiores merecedores de esforço. Os leitores assíduos encontram vida na leitura. Assim como existem aqueles que não podem deixar de praticar atividades arriscadas – para-quedismo, escaladas negativas, vale-tudo, roleta-russa automobilística, etc. –; outros estão viciados em bebidas, drogas, etc.; os leitores não podem passar sem aproximar-se diariamente do assombroso, delicado e avassalador encontro com a verdade ou com a beleza. Sim, também com a beleza. As cenas descritas, os sentimentos narrados, os acontecimentos ímpares produzem em nós a admiração do belo (Sam Sheppard, a morte e o enterro da sua mãe). Ao ler, rimos, choramos, comovemo-nos, irritamo-nos, exultamos de alegria, ficamos afundados na desilusão; sempre se verifica uma transformação em nós.
II. O autor e seus personagens Eles são nossos amigos íntimos, ou inimigos figadais. O livro é o autor em ato. Os personagens são seres como nós, ou opostos a nós, ou que gostaríamos ou detestaríamos que fossem como nós. O corcunda de Notre Dame, Robinson Crusoé, Gulliver, Amyr Klink, Garrincha, Miyamoto Musashi, Harry Potter... Conhecêmo-los. Se os encontrássemos na rua, teríamos coisas a lhes dizer. E, reparem: não são seres humanos de hoje, do Brasil e de São Paulo: são pessoas de todas as épocas e lugares. Algumas, até do futuro (ficção futurística plausível, como o Guy Montag de Fahrenheit 451).São experiências que, somente com a nossa vida ou com as dos que estão ao nosso redor, não conseguiríamos adquirir. Enriquecemos o nosso mundo interior com a leitura. Temos coisas a dizer. Sabemos dos precedentes. Quem lê de verdade e a sério, vive mais, vive melhor, vive com profundidade. Compreende com mais sintonia o mundo e os outros. Porque “lê” o mundo e os outros. E, se os livros são bons, está havendo educação para uma vida boa – o ideal aristotélico de perfeição. Todo esforço por ler é ricamente recompensado. |
| < Anterior | Próximo > |
|---|